terça-feira, 7 de junho de 2011

Emocionante decisão sobre a gratuidade da justiça

       O Tribunal de Justiça de São  Paulo, através de voto proferido pelo desembargador José Luiz Palma Bisson, em Recurso de Agravo de Instrumento (nº 1001412-0/0 – 36ª Câmara) ajuizado contra despacho - decisão interlocutória - de um Magistrado da cidade de Marília (SP), que negou os benefícios da Justiça Gratuita a um menor, filho de um marceneiro que morreu depois de ser atropelado por uma motocicleta. O menor ajuizou uma ação de indenização contra o causador do acidente pedindo pensão de um salário mínimo mais danos morais decorrentes do falecimento do pai.
       Por não ter condições financeiras para pagar custas do processo o menor pediu a gratuidade prevista na Lei 1060/50. O Juiz, no entanto, negou-lhe o direito dizendo não ter apresentado prova de pobreza e, também, por estar representado no processo por “advogado particular”. A decisão proferida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo a partir do voto do Desembargador Palma Bisson é daquelas que merecem ser comentadas, guardadas e relidas diariamente por todos os que militam no Judiciário.
        Segue a íntegra do voto:
“É o relatório. Que sorte a sua, menino, depois do azar de perder o pai e ter sido vitimado por um filho de coração duro – ou sem ele -, com o indeferimento da gratuidade que você perseguia. Um dedo de sorte apenas, é verdade, mas de sorte rara, que a loteria do distribuidor, perversa por natureza, não costuma proporcionar. Fez caber a mim, com efeito, filho de marceneiro como você, a missão de reavaliar a sua fortuna. Aquela para mim maior, aliás, pelo meu pai – por Deus ainda vivente e trabalhador – legada, olha-me agora. É uma plaina manual feita por ele em paubrasil, e que, aparentemente enfeitando o meu gabinete de trabalho, a rigor diuturnamente avisa quem sou, de onde vim e com que cuidado extremo, cuidado de artesão marceneiro, devo tratar as pessoas que me vêm a julgamento disfarçados de autos processuais, tantos são os que nestes vêem apenas papel repetido. É uma plaina que faz lembrar, sobretudo, meus caros dias de menino, em que trabalhei com meu pai e tantos outros marceneiros como ele, derretendo cola coqueiro – que nem existe mais – num velho fogão a gravetos que nunca faltavam na oficina de marcenaria em que cresci; fogão cheiroso da queima da madeira e do pão com manteiga, ali tostado no paralelo da faina menina. Desde esses dias, que você menino desafortunadamente não terá, eu hauri a certeza de que os marceneiros não são ricos não, de dinheiro ao menos. São os marceneiros nesta Terra até hoje, menino saiba, como aquele José, pai do menino Deus, que até o julgador singular deveria saber quem é. O seu pai, menino, desses marceneiros era. Foi atropelado na volta a pé do trabalho, o que, nesses dias em que qualquer um é motorizado, já é sinal de pobreza bastante. E se tornava para descansar em casa posta no Conjunto Habitacional Monte Castelo, no castelo somente em nome habitava, sinal de pobreza exuberante. Claro como a luz, igualmente, é o fato de que você, menino, no pedir pensão de apenas um salário mínimo, pede não mais que para comer. Logo, para quem quer e consegue ver nas aplainadas entrelinhas da sua vida, o que você nela tem de sobra, menino, é a fome não saciada dos pobres. Por conseguinte um deles é, e não deixa de sê-lo, saiba mais uma vez, nem por estar contando com defensor particular. O ser filho de marceneiro me ensinou inclusive a não ver nesse detalhe um sinal de riqueza do cliente; antes e ao revés a nele divisar um gesto de pureza do causídico. Tantas, deveras, foram as causas pobres que patrocinei quando advogava, em troca quase sempre de nada, ou, em certa feita, como me lembro com a boca cheia dágua, de um prato de alvas balas de coco, verba honorária em riqueza jamais superada pelo lúdico e inesquecível prazer que me proporcionou. Ademais, onde está escrito que pobre que se preza deve procurar somente os advogados dos pobres para defendê-lo? Quiçá no livro grosso dos preconceitos…
Enfim, menino, tudo isso é para dizer que você merece sim a gratuidade, em razão da pobreza que, no seu caso, grita a plenos pulmões para quem quer e consegue ouvir. Fica este seu agravo de instrumento então provido; mantida fica, agora com ares de definitiva, a antecipação da tutela recursal. É como marceneiro que voto.” 

(Des. JOSÉ LUIZ PALMA BISSON — Relator Sorteado)
Fonte: http://rodrigocarvalhosouza.blogspot.com/

3 comentários:

  1. Dizem que a justiça não tem coração, pode não ter, mas muitos julgadores tem! Que bela decisão, em forma de poema, com as mais sábias palavras, servem ate de consolo ao menino. Emocionante!!! José carpinteiro, "pai" do menino Jesus; José desembargador, 2 mil anos depois, ainda presente!!!

    ResponderExcluir
  2. Realmente emocionante professor!!!! Pois a sociedade está acostumada a ver e julgar por aquilo que se parece, e ninguém, ou talvez a maioria, não está disposto a ouvir e nem ao menos ajudar o próximo! Yohana

    ResponderExcluir
  3. Ocorre que durante o curso de Direito enquanto alguns alunos correm atrás de muitas coisas ao mesmo tempo, independentemente de ter um emprego ou a falta deste, outros aprendizes de encarceram em um mundo de ficção, onde só existem eles, os livros, uma sociedade fantasiosa. Sou filha de uma domestica e por este fato não me ponho como "coitadinha", porem no inicio do curso de direito lembro-me como se fosse hoje, de um colega com mais recursos financeiros do que os meus respondendo a pergunta de um professor que acabava de ingressar na Universidade. A pergunta desse professor foi à seguinte: Que tipo de culturas existe aqui na cidade?
    A resposta desse meu futuro colega de trabalho foi a de que em meu município existem apenas DOIS tipos de cultura: OS RICOS e os POBRES.

    Ao ouvir a referida resposta um sentimento de indignação tomou conta de mim, e a única reação que tive foi a de perguntar para este rapaz se o fato do pai dele ser empresário, eles terem carros e residirem em um bairro nobre, o fazem parte da cultura rica enquanto eu filha de uma empregada domestica, sem carros ou motos e morando perto de um dos bairros mais pobres da cidade faço parte da cultura pobre, no entanto nos encontrávamos no mesmo local, cursando na mesma universidade, o mesmo curso, recebendo de nossos docentes o mesmo grau de instrução.
    Enquanto aqueles que possuem o verdadeiro grau de instrução, que não é só formado por jurisprudências, códigos e doutrinas não se impõem, pessoas como a dessa historia e como esse meu colega continuaram a existir.

    ResponderExcluir